×

Canada

Trabalhando como Traffic Control Personnel (ou TCP)

Muita gente passou por mim na rua sem nem perceber. Eu estava ali, de camiseta, calça e capacete refletivo e placa na mão, controlando o trânsito para que todos passassem com segurança. Esse é o trabalho de um Traffic Control Personnel (ou TCP), uma função que exige paciência, atenção e resistência que muita gente nem imagina.

No meu post anterior comentei brevemente que eu trabalhei nessa posição por aqui. Em junho de 2024, a convite de uma amiga, fiz o treinamento para TCP e comecei a trabalhar na área imediatamente após a conclusão do curso.

Entre o Slow e o Stop

Qualquer obra que precise utilizar a rua ou a calçada, de certa maneira, vai precisar de alguém para direcionar o trânsito, e é o TCP que vai ser chamado para fazer isso. A profissão aqui não é exclusividade do governo. Existem muitas empresas na área aqui.

É um trabalho que exige toda a sua atenção e foco no que está acontecendo à sua volta e ainda exige que você tente prever o que pode acontecer em determinadas situações.

Você aprende tudo sobre regras de trânsito e placas. Vai precisar dessas informações na hora de planejar como vai ser feito o desvio (se for o caso) e quais sinalizações serão necessárias para que os motoristas entendam o que está acontecendo na área.

Trabalhar sob qualquer condição climática

Não importa se está chovendo, nevando, ventando ou aquele sol de rachar mamona. Se há obras acontecendo, há TCP na rua.

E cada estação tem o seu desafio. Na primavera ainda é um pouquinho frio por aqui e chove bastante. A roupa que deveria nos proteger da chuva nem sempre protege e muitas vezes a gente acaba com alguma parte do corpo molhada.

No verão, o desafio é aguentar o sol extremamente quente e beber água o suficiente para não sofrer uma insolação. No outono e no inverno, o desafio é se manter aquecido.

Aqui onde moro não neva muito e quando nevou em janeiro de 2024, eu fiquei duas semanas sem trabalhar. Infelizmente o trabalho aqui é totalmente baseado em horas trabalhadas e se não trabalhamos, logo, não recebemos salário.

Sem pausa, mas com propósito

Ficar 12 horas em pé pode parecer impossível (é impossível para mim), mas quando você sabe que está ajudando a evitar acidentes, tudo ganha outro peso. Ainda assim, é um trabalho que te testa física e mentalmente, todos os dias.

O máximo de horas que trabalhei em pé foi 10 horas. E não foi uma vez apenas, foram várias. E em todas elas eu não tive pausa para comer. O lanche era feito durante o expediente, com uma placa na mão e na outra o lanche. O único momento em que eu sentava era nos 2 minutos em que usava o banheiro (quando tinha banheiro por perto). Algumas vezes nem isso pude fazer.

Há legislação para coibir esse excesso de violação humana, mas ainda assim algumas vezes acontecia de rolar uma obra e não contratarem um banheiro químico para ter no local.

Ficar tantas horas em pé, muitas vezes no mesmo lugar sem poder sair andando, causa um estresse físico e mental que eu ainda sinto mesmo estando há 7 meses sem exercer a profissão. Tenho dores na lombar e no punho esquerdo por segurar a placa de pare por tantas horas.

Eu até penso que poderiam existir soluções para que ninguém sofresse com isso, como por exemplo, uma jornada de trabalho reduzida. Mas é complicado implementarem isso aqui, pois muita gente não iria aceitar. O custo de vida no Canadá aumentou muito nos últimos anos e trabalhar menos automaticamente implica em receber menos salário.

Eu desisti da profissão, mas sigo admirando quem segue fazendo esse trabalho pela vida toda. Você se arrisca se expondo às condições climáticas, se expondo a motoristas ruins e muitas outras coisas que podem acontecer nesses ambientes.

Eu tive meus momentos de conseguir ver o propósito quando pude segurar o trânsito para auxiliar um pedestre a atravessar a rua, ou quando auxiliei uma pessoa cega a andar próximo à obra sem correr riscos.

Trabalhar com controle de tráfego me ensinou a observar mais e julgar menos. Aprendi que cada motorista tem um dia diferente, e cada colega de trabalho enfrenta o cansaço à sua maneira. No fim das contas, é um exercício diário de humanidade e resistência.

O trabalho de um TCP pode passar despercebido, mas sem ele, o caos tomaria conta das ruas. A gente não só segura uma placa. A gente segura o fluxo, o ritmo e a segurança de muita gente. E isso, por si só, já é motivo de orgulho.

Da próxima vez que você vir alguém controlando o trânsito, dê um aceno ou um sorriso (ou melhor ainda, um café!).

Faz mais diferença do que você imagina.

Publicado por Li Garone

Oi, eu sou a Li, mas no RG tá Eliane mesmo. Geminiana de 1988, nascida em Campinas/SP e atualmente vivendo entre as montanhas e o mar de Victoria, BC (Canadá). Apaixonada por fotografia, animais, internet, bonecas, decoração e tudo que envolva arte e criatividade. Nerd e geek: curto tanto DC quanto Marvel, e ainda me divirto assistindo filmes, séries e cuidando das minhas bonecas importadas como se fosse a coisa mais normal do mundo (e é, né?). Motociclista de coração, fã de música eletrônica e dona de um estúdio de impressões 3D, o Purrfect 3D Prints. Tenho dois gatinhos: o Oreo, adotado aqui no Canadá, e a Paçoca, que veio do Brasil e conquistou todo mundo com sua timidez. Também coleciono esmaltes, tento me aventurar na maquiagem (com resultados questionáveis) e acredito nas coisas simples da vida, em unicórnios e num mundo com menos falsidade, inveja e mentira. Tô sempre tentando fazer o bem e ser melhor um pouquinho a cada dia.

Comentários